A Era do Exibicionismo Digital
Desde as
primeiras webcams, voyeurismo e exibicionismo inundam a Internet. Com os
smartphones, ambos passaram a ser praticados a qualquer hora e lugar, ganhando
uma legião de adeptos, inclusive entre adolescentes. Longe de qualquer discurso
moralista, de vez em quando, as coisas fogem do controle, reabrindo o debate
sobre os riscos do exibicionismo online.
Recentemente,
tivemos dois exemplos extremos disso. Há alguns dias, uma adolescente se
suicidou após suas amigas publicarem no Snapchat um vídeo dela tomando banho. Em outro caso, uma mulher está sendo processada
por transmitir
o estupro de uma amiga pelo Periscope. Apesar de,
nesses dois episódios, os vídeos terem sido postados sem consentimento, esses
dois aplicativos se tornaram ferramentas incríveis para esse “Big Brother
pessoal”.
Apesar de
os termos de uso do Periscope e do Snapchat proibirem explicitamente conteúdo sexual ou
pornográfico, não é difícil se deparar com isso nos dois serviços. Mas o que
leva alguém a se expor dessa forma? E as pessoas realmente têm consciência do
que estão fazendo?
O
principal motivo é que, em tempos de vidas hiperconectadas, ver uma foto ou um
vídeo seu sendo amplamente compartilhado e “curtido” causa um enorme prazer aos
seus autores. O feedback instantâneo de comentários e de ícones de positivo e
corações aquece o ego e incentiva uma corrida para se tornar uma
microcelebridade online, seja entre seus amigos, seja em um grupo de desconhecidos
em escala global.
Nessa
busca pela “fama”, vale tudo. E poucas coisas são tão eficientes nessa jornada
quanto erotismo e sexo.
O
Snapchat tem uma curiosa característica de que todo o conteúdo publicado nele
se autodestrói pouco tempo após ser visto pelo destinatário. Isso causa uma
sensação de segurança, que tem favorecido o compartilhamento de imagens íntimas
para “sexting”, ou seja, conversas online de conteúdo sexual.
Só que
essa segurança é pura ilusão.
“Manda nudes”
O
Snapchat realmente destrói os conteúdos logo após serem visualizados. Mas nada
impede que os destinatários criem cópias dessas fotos e vídeos antes que isso
aconteça. Portanto, aqueles “nudes” (fotos explícitas) podem ter uma vida nada
efêmera.
Trocando
em miúdos: sabe-se onde surge a imagem, mas não se sabe onde ela vai acabar. E
aí está o problema: as pessoas nem sempre têm consciências disso.
Por
exemplo, aquelas imagens enviadas cheias de confiança para o outro podem se
transformar, no futuro, em outro fenômeno recente: a “revenge porn”, quando
uma das partes espalha fotos íntimas da outra na Internet, normalmente por
vingança pelo fim de um relacionamento.
No caso
de adolescentes, a exposição de sua intimidade também pode estar associada a
mais um fenômeno da cultura digital: o “cyberbullying”, quando as redes sociais são usadas para humilhar
um desafeto. E imagens íntimas são ótimas para isso. Disso podem surgir
atitudes extremas, como o suicídio mencionado no segundo parágrafo.
O fato é
que não existe segredo na Internet. Por mais que se use os controles de
privacidade das redes sociais, por mais que aplicativos garantam o anonimato,
uma vez na rede, não tem volta: tudo corre o risco de vazar.
Mesmo
lugares que são criados com a premissa da defesa da privacidade, não há
garantia de segurança absoluta. Em 2014, James Comey, diretor
do FBI, disse que existem dois tipos de grandes empresas: aquelas que já foram
invadidas e aquelas que não sabem que já foram invadidas.
Como
esquecer do caso da invasão do site Ashley Madison, que promove relacionamentos extraconjugais,
ocorrida em agosto de 2015? Subitamente não apenas os dados pessoais de milhões
de usuários foram expostos pelos hackers, como também as pessoas com quem
conversaram, o que disseram e até as fotos que trocaram.
O que fazer?
Mas então
devemos parar de usar nossos smartphones? Abandonar as redes sociais? Deixar de
enviar fotos a quem gostamos?Claro que não! Não devemos renegar o mundo que
vivemos, e sim usá-lo com sabedoria.
E isso
significa, para começar, seguir o ditado que diz que “não devemos dar sorte ao
azar”. Em outras palavras, ao fazermos alguma coisa, devemos pelo menos estar
conscientes do que cada ato representa. Tirar uma foto sensual não é um
problema; publicá-la online para um grande grupo de pessoas (especialmente se
tiver desconhecidos nela), pode ser. A menos que a superexposição não seja um
problema em absoluto para essa pessoa, e ela estiver muito segura disso.
No caso
de se ter filhos na adolescência ou entrando nela, uma conversa sincera é
fundamental. Nunca no sentido de proibição ou de amedrontamento, mas de
conscientização. A melhor maneira de se evitar dissabores nesse sentido é
oferecer aos filhos todos os recursos para que eles compreendam o que fizerem.
Além disso, é fundamental que pais e filhos conversem com franqueza e confiança
sobre tudo, para que os primeiros sejam o porto-seguro dos segundos, sempre que
precisarem.Tudo porque estamos vivendo um momento de grande transformação
social. Não é necessário temê-lo. Tentar impedi-lo não é possível. A melhor
coisa a se fazer é compreender as mudanças e usá-las com inteligência e a nosso
favor: curti-las numa boa e com confiança!
Constituição
Federal . Art 5. X
- são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas,
assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de
sua violação; XI - a casa é asilo inviolável do indivíduo,
ninguém nela podendo penetrar sem consentimento do morador, salvo em caso de
flagrante delito ou desastre, ou para prestar socorro, ou, durante o dia, por
determinação judicial; XII - é inviolável o sigilo da
correspondência e das comunicações telegráficas, de dados e das comunicações
telefônicas, salvo, no último caso, por ordem judicial, nas hipóteses e na
forma que a lei estabelecer para fins de investigação criminal ou instrução
processual penal;
http://brasil.estadao.com.br/blogs/macaco-eletrico/exibicionismo-nas-redes-sociais-por-que-as-pessoas-se-expoem-online/