Texto do Leonardo Sakamoto
Usei este espaço para criticar o presidente da República quando ele deu a polêmica declaração comparando o preso político ao preso comum, desconsiderando a importância da greve de fome. O Brasil poderia continuar respeitando a soberania cubana e, ao mesmo tempo, agir como se espera de um ator relevante internacionalmente quanto ao respeito dos direitos humanos. Muita gente desceu o sarrafo em Lula por conta desse episódio.
É, portanto, irônico que muitos desses que criticaram a não-interferência brasileira em Cuba atacarem a “interferência” norte-americana no Brasil. Explico: o Departamento de Estado norte-americano divulgou seu novo relatório analisando a situação dos direitos humanos em 194 países, como faz há mais de três décadas. E, assim como todos os anos,
há uma relação dos problemas encontrados por aqui. Apenas a ponta do iceberg pois, a bem da verdade, a nossa ficha corrida é bem maior que isso.
Execuções sumárias por policiais no Rio e em São Paulo, ações de milícias pagas por fazendeiros no interior do país, desaparecimentos e torturas, tratamento desumano aos encarcerados, prisões arbitrárias, ataques contra a liberdade de expressão, discriminação por cor de pele e gênero, tráfico de pessoas para exploração sexual e por aí vai. O de sempre, infelizmente.
Mas gerou certa comoção as críticas à situação trabalhista nas lavouras de cana-de-açúcar, como a persistência de trabalho infantil, de trabalho escravo e superexploração. O caso da Cosan, um das maiores produtoras de açúcar e álcool do mundo, que entrou na “lista suja” do trabalho escravo e saiu por liminar judicial, também foi citado.
É interessante como o pessoal por aqui tentou encaixar a divulgação do relatório anual de direitos humanos com o anúncio da retaliação brasileira aos Estados Unidos, autorizada pela Organização Mundial do Comércio devido aos subsídios ilegais dados aos produtores de algodão de lá. Do ponto de vista desses analistas, uma coisa estaria relacionada a outra. Sem medo de parecer inocente, isso é uma tremenda besteira.
Quem, como eu, lê os relatórios todos os anos sabe que essas críticas são recorrentes – já se falava de trabalho infantil e escravo na cana no penúltimo relatório, por exemplo. As análises não são perfeitas, mas há muita informação que foi coletada diretamente com o governo, empresas de mídia, organizações da sociedade civil, entidades empresariais, instituições do sistema de Justiça e representa algo próximo da realidade.
É claro que a não inclusão dos Estados Unidos como ator de desrespeito internacional dos direitos humanos tira força do conjunto e dá margens a especulações sobre um suposto interesse comercial por trás disso. Ao mesmo tempo, é importante que os EUA não utilizem essas informações para aplicar sanções comerciais, mas que também passem a investigar com mais cuidado os casos de tráfico de pessoas e trabalho escravo dentro do próprio país. Muitas das barbaridades de lá e de outros países “ricos'' podem ser encontrados no blog especializado
Trafficking Monitor (em Inglês).
Mas isso não invalida o que está escrito no relatório ou diminui a importância dos crimes lá descritos. A comunidade internacional tem sim poder para cobrar e pressionar, seja por um tratamento justo aos dissidentes em Cuba seja pela qualidade de vida para os trabalhadores no Brasil. Mas também pelo fim da prisão de Guantánamo e pela retirada imediata dos invasores norte-americanos do Iraque e Afeganistão. Ou contra aqueles entes não-estatais que fomentam o desrespeito aos direitos humanos através de injustiças cometidas na cadeia produtiva global dos biocombustíveis para depois culpar apenas as plantations, quer dizer, os países da periferia.
Afinal de contas, se a exploração do ser humano não conhece fronteiras, a sua defesa também não. Mesmo que por caminhos muitas vezes sinuosos.